Nó na garganta


Segunda-feira , 18 de Abril de 2005


Fuga

Quando apontava na esquina seu coração se encolhia. Sentia uma pressão no peito que bloqueava o fluxo de ar nos pulmões. Caminhava a passos lentos até chegar ao portão. Na rua escura e deserta, só alguns gatos equilibrando-se nos muros. O velho cadeado dividia-se em dois com o girar da chave. Mais dois passos e estava diante da porta. O dia inteiro no trabalho evitava pensar no momento em que chegaria em casa. Prorrogava-o ao máximo. O ranger da porta soava como o toque da trombeta que o conduzia à sua masmorra interior. Na casa escura, vazia e silenciosa entrava de mãos dadas com a solidão. Acendia todas as luzes, ligava a televisão, na tentativa de trazer para si a sensação de companhia e afastar as sombras, a insegurança, o medo e o pranto. Era assim que se sentia todas as vezes que sua mulher viajava e os filhos iam para a casa da avó. Numa dessas noites, tentando fugir da solidão, entra numa sala de chat, daquelas tipo “papo-cabeça”. Permaneceu ali apenas observando os diálogos, até ser abordado por alguém com quem travou uma conversa agradável. No final, sentia-se melhor. Passou a voltar outras vezes. Conheceu mais pessoas que freqüentavam a sala. Pessoas interessantes. Pessoas de toda parte. Tornou-se assíduo. A despeito de todos os complexos interiores que carregava consigo desde criança, agora poderia experimentar a sensação de pertencimento, ainda que fosse num mundo fugidio, virtual.

Escrito por Aquilante às 18h31
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Sexta-feira , 08 de Abril de 2005


Coração trincado

Era um lindo bebê. Bochechas rosadas. O corpo cheio de dobrinhas. Ele passava horas contemplando-o no berço. Velava o seu sono todas as noites. O parto foi mediante uma cesariana. Assim, enquanto sua esposa repousava, ele tomava todos os cuidados com o bebê. Sozinho. Trocava as fraldas sujas, dava os banhos, cuidava do umbigo. Tudo isso fazia com imensa satisfação, com um prazer indescritível. Era seu filho. Uma parte de si mesmo. Passeava com o bebê exalando orgulho por todos os poros. Filipe tinha dois anos quando sua mãe resolveu fazer pós-graduação numa outra cidade. Ficava fora uma semana inteira por mês, durante vários meses. O pai tinha que cuidar do garoto sozinho. Mas certamente tiraria de letra. Estava apto a realizar todos os cuidados. Todavia, a insegurança o afligia. Seria mesmo capaz de se virar sozinho? Daria conta de suprir todas as necessidades daquele ser tão frágil? O bebê ainda dormia quando ele foi levar sua esposa à rodoviária. Acabara de amanhecer. Voltou para casa e aguardou o filho acordar. Quando aconteceu, pegou-o do berço e o trouxe para sua cama. Deitaram um ao lado do outro. Então o bebê perguntou: “Onde está a minha mãe?” – “Ela viajou”., respondeu ele. Choramingando, o bebê disse: “Eu quero a minha mãe. Não quero você, não. Saia da minha casa!”. Uma reação passional compreensível, por se tratar de uma criança. Mas suficiente para trincar aquele coração de pai.

Escrito por Aquilante às 17h42
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Segunda-feira , 14 de Março de 2005


Numa madrugada...

Era uma madrugada fria aquela em que ele acordou e percebeu o vazio no outro lado da cama. Assustou-se! Teria acontecido algo? Estaria ela passando mal? Antes que saltasse da cama, avistou-a na sala. Estava sentada no sofá, com um olhar sereno. – “O que houve? Está tudo bem?” Perguntou ele. – “Está na hora!” respondeu sorrindo. – “Você está brincando comigo, não é?” Indagou-lhe, meio incrédulo, meio assustado. – “É sério! Estou sentindo as contrações.” Há dias que ele aguardava este momento, mas tinha certeza que viria acompanhado de gritos escandalosos. Dirigiram-se apressadamente ao hospital que ficava bem próximo à sua casa. Da recepção, após preencherem os dados da paciente, encaminharam-na à sala onde as gestantes aguardam a hora do parto. Lá fora, sem notícias, ele aguardava ansiosamente. As horas passavam... até que, finalmente, a notícia do nascimento. Era um garoto forte e saudável. Quatro quilos e trezentos gramas de pura alegria. – “Tem os olhos da avó. O nariz do tio. A boca da mãe.” Diziam. – “Ué, não sobrou nada para o pai?” Reclamou em tom de brincadeira. Nada faria daquele momento menos especial. Tudo que ele conseguia pensar ao olhar aquela criança recém-nascida em seus braços era, -“Se fui capaz de formar uma criatura tão perfeita, não posso ser tão ruim”. Talvez fosse o fim da sua eterna solidão, dos seus complexos interiores, da sua autopiedade.

Escrito por Aquilante às 16h15
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Sexta-feira , 11 de Fevereiro de 2005


O casamento...

Ele nunca fora paciente. Não sabia esperar. Desde criança, quando queria algo tinha que ser imediatamente. Quando não era possível, estatalava-se a chorar. Acredito ser uma característica da família. Era um “Fernandes”! Namoravam há pouco mais de um ano e ele já falava em casamento. Ele não se conformava quando ela dizia que ainda era cedo. Não via razão para adiar. Afinal, não tinham certeza de que foram feitos um para o outro? Por várias vezes, voltava para casa zangado com ela. Queria casar logo. Queria dormir e acordar ao lado dela. Queria viver com ela para sempre. Seria a chance de acabar com a solidão que insistia em acompanha-lo. Certo dia, para sua surpresa, foi promovido no emprego. Passara a assumir um cargo com um salário bem melhor. Era um sinal do céus, providência divina. Agora podia reformar a velha casa (que fora do seu pai), comprar os móveis e sustentar uma família com um maior conforto. Ela concordou e, finalmente marcaram a data. À medida que os dias passavam e se aproximava o dia do esperado enlace, aumentava sua ansiedade. A felicidade, a qual ele tanto buscava, estava próxima. Faltava pouco para ter o seu vazio interior preenchido.  Enfim, casou-se! Logo mudaram-se para a casa nova.

Escrito por Aquilante às 17h20
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Terça-feira , 21 de Dezembro de 2004


O retiro

Fevereiro de 1992. Voltavam de um retiro de carnaval. Os jovens e adolescentes da Igreja estavam há três dias numa fazenda que ficava a distância de 20 quilômetros da cidade. Naqueles dias, puderam respirar ar puro; contemplar a paisagem verde da Chapada; admirar-se com os canyons que embelezavam a Serra do Tombador; tomar banho de riacho e arranhar as pernas na vegetação típica da caatinga. Durante o dia, eram realizadas palestras e devocionais, mas havia tempo para diversões, conversas e paqueras. Todas as noites havia culto e após, aconteciam brincadeiras, normalmente com apresentações de esquetes. Adultos conversando, crianças brincando, mulheres cozinhando, casais namorando, cenas comuns nos retiros.

Era noite. Passava das vinte e uma horas. No alto da serra costumava esfriar muito. Estavam todos se acomodando no velho caminhão para retornar à cidade. Cada um buscava o melhor lugar sobre a carroceria. O rapaz da nossa história, por estar com uma inflamação na garganta, ganhou o privilégio de viajar na cabine do caminhão. Certamente por armação de alguns que torciam para o surgimento de um novo romance, Patrícia foi colocada também na cabine. Todos sabiam que ela gostava dele. Ela não conseguia disfarçar sua paixão. Ele próprio sabia desde o início, desde quando ela sentava-se ao seu lado na Igreja todas as vezes que o encontrava num banco vazio. Começaram a descer a serra. Na cabine, o motorista e o casalzinho. “Está com frio?” – perguntou ele, procurando um pretexto para uma aproximação. “Sim” – respondeu ela com um discreto sorriso nos lábios. “Posso te aquecer?” – Voltou a perguntar. “Pode sim” – respondeu sem vacilar. Abraçaram-se. A estrada escura, o céu estrelado, as luzes da cidade vistas do alto, o motorista do caminhão, foram testemunhas do primeiro beijo. Assim, desceram a serra na boléia do velho caminhão, ela aninhada em seus braços.

Escrito por Aquilante às 16h27
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Quarta-feira , 15 de Dezembro de 2004


Adolescência...

Dizem que adolescência é uma fase difícil. Indecisão, conflitos, confusão, rebeldia, etc. Por essa fase, passa a maioria. Imaginem tudo isso somado aos complexos existenciais do garoto da nossa história. Costumava isolar-se do mundo. Jovem de poucas palavras. Falava somente o essencial. Caminhando pela cidade, ao ver ao longe alguém conhecido, atravessava para o outro lado da rua para evitar o mero cumprimento. Centenas de vezes ouviu a mãe reclamar: “Cumprimente fulano”, quando tinha visita em casa. Ele odiava. Nessa época, não tinha muitos amigos. Na verdade, não tinha amigos. Sentia-se só. Sozinho no mundo. Certa vez, ao terminar o culto, saia apressado da Igreja, como costumava fazer todas as noites de domingo, quando uma moça o abordou. Disse que queria falar-lhe por alguns instantes. Perguntou-lhe: “O que há com você? Porque está sempre sozinho? Porque na Igreja senta-se sempre num banco vazio, de preferência num dos últimos e sempre na ponta?” Ele não tinha explicações a dar. Não sabia o que dizer. Não encontrava razões concretas para tal comportamento. Respondeu: “Porque sou assim mesmo”. Então a moça, expressando ternura no olhar disse: “A partir de hoje, todas as vezes que você se sentar num banco vazio, eu sentarei ao teu lado”. Naquela noite de domingo, ele voltou para casa com uma sensação diferente, com uma alegria no peito e um leve sorriso nos lábios.

Escrito por Aquilante às 17h12
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Terça-feira , 07 de Dezembro de 2004


Sina...

Ele não se lembra muito bem, mas tudo indica que foi numa época de festas juninas. As crianças costumavam aguardar ansiosamente por esse período. Fogueiras iluminavam as ruas. Múltiplos pontos luminosos tornavam mais bela a cidade do interior. Em volta delas, reuniam-se as famílias. Milho assado, canjica, pamonha, bolo de aipim, amendoim cozido ou torrado, não podiam faltar nessa ocasião. Chuvinhas, cobrinhas, estalos de salão faziam a alegria dos pequenos. Vinhos, quentões, licores, a dos adultos. Era uma tarde quando estava a soltar pequenas bombinhas em frente à sua casa. Viu um movimento fora do comum em sua casa. Cochichos, sussurros, lamentações, tristezas, lágrimas. Enfim, soube do acontecido. Seu irmão mais velho sofrera um acidente automobilístico e não resistiu. Sentiu uma tristeza apenas superficial, afinal, era o irmão que tinha menor aproximação. Sempre calado. Pouco ficava em casa, talvez para evitar respirar o mesmo ar da madrasta. “Revoltado”, ouvira muitas vezes alguém falar referindo-se ao seu irmão. Cresceu, como todos os outros, indo à igreja aos domingos. Mas, assim que passou a dirigir sua própria vida, desviou-se. Talvez seja este o fim daqueles que tomam a direção da sua vida das mãos de Deus e resolve faze-lo por conta própria. Naquele dia, embora estivesse dirigindo em serviço, o fazia sob efeito do álcool. Dos que estavam no veículo, todos os outros sofreram leves escoriações. “Na nossa família, a sina é morrer de acidente!”, falou sua mãe adotiva ao saber da morte de um primo e amigo do garoto da nossa história.

Escrito por Aquilante às 17h22
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Quarta-feira , 01 de Dezembro de 2004


Preconceito...

Cabelos lisos e loiros, olhos azuis, pele clara. Assim era o Jailson, colega da mesma turma da escola. Tinham a mesma idade. Moravam no mesmo bairro. Podemos dizer que eram da mesma classe social. Jailson morava com a mãe. Ninguém nunca soube sobre o seu pai. Sempre com um olhar triste. Os colegas da turma o discriminavam. Faziam gozação com as suas unhas, nem sempre muito limpas. Diziam que ele não costumava banhar-se diariamente e que tinha piolhos. Entretanto, era o melhor amigo do garoto da nossa história. Costumavam ir e voltar da escola juntos, de bicicleta. Ele possuía uma monareta verde. Na verdade, o nosso garoto sempre se identificava com os oprimidos, com os marginalizados, com os excluídos. Aqueles que eram isolados pelo grupo, era exatamente desses que ele se aproximava. Certamente por se sentir um deles. Cresceu com a mania de sempre se colocar no lugar dos outros. Sensível, quando alguém passava por algum vexame, ao invés de se divertir como a maioria, quase chorava em solidariedade ao ofendido, como se fosse a própria vítima. Anos passaram, avançaram nos estudos e continuavam amigos. Separaram-se ao concluírem a 8ª série do Ensino Fundamental. Jailson se mudou da cidade e nunca mais deu notícias. Por onde andará? O que tem feito? Espero que o preconceito do qual foi vítima não tenha trazido prejuízos à sua vida adulta.

Escrito por Aquilante às 17h20
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Segunda-feira , 29 de Novembro de 2004


Complexos...

“Você é um privilegiado”, sempre dizia uma de suas irmãs quando ele começava a reclamar da vida. “Você tem tudo que precisa: boas roupas, bons calçados, boa alimentação, boa educação...”, acrescentava. Não era suficiente. Não se conformava. Mesmo sabendo que seus irmãos não tinham uma vida tão confortável como a sua. Mesmo sabendo que eram mal tratados pela madrasta, a qual diferenciava-se das dos contos infantis apenas pela ausência da enorme verruga no nariz. O Fernando estava sempre em primeiro lugar, os outros teriam que se contentar com o que sobrava, quando sobrava. Certa vez, trancou no armário do seu quarto um bolo que havia feito, para que ninguém além do seu filho comesse do mesmo. Outras vezes, trancava a porta do quarto com a tomada da TV (uma velha Telefunken em branco e preto) para dentro. Assim, os “corninhos” (como ela tratava os garotos) não poderiam assistir seus programas favoritos. Durante muitos anos, fez da mais nova, das mulheres, a sua empregada. Norma lavava, passava, cozinhava, arrumava, enquanto ela descansava, afinal, o ócio deve cansar barbaridade. Mesmo sabendo das dificuldades pelas quais enfrentavam seus irmãos, o garoto da nossa história desejava viver com eles. Pensava que aquela era a sua família de verdade. Sempre que se sentia um fardo para seus pais adotivos, e isso acontecia freqüentemente, desejava correr para a casa do seu pai e dizer: “Vim para ficar! Aqui é o meu lugar! A responsabilidade de cuidar de mim é sua, não a transfira para terceiros!” Assim cresceu, sentindo-se abandonado, dispensável, sobrando. Vivia com uma família que não era sua, pois a sua não o quis. Era assim que pensava.

Escrito por Aquilante às 17h23
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Sexta-feira , 26 de Novembro de 2004


Eles chegaram...

Ele estava extremamente ansioso. Não conseguia conter o desejo de rever o pai e os irmãos. E agora poderia vê-los todos os dias, já que a família estava se mudando para a sua cidade. Estava prostrado na janela da casa quando o caminhão passou na rua. Pôde ver o Milton sentado sobre um dos móveis, segurando algum outro. Sorriu e acenou-lhe com uma das mãos. Iam morar num bairro próximo. Seu pai comprara uma casa próxima ao Hospital Regional. Três quartos, duas saletas, uma cozinha, um banheiro com a entrada pelo quintal. Ao lado da casa, uma garagem com cobertura de telhas de amianto. Lá ficaria o fusca laranja novinho que o pai ainda compraria. Aquela rua ainda não era pavimentada. Esgotos corriam a céu aberto o dia inteiro. Meninos seminus corriam descalços rolando velhos pneus com as mãos. Neste lugar passaram a morar seu pai, sua madrasta e seus sete irmãos. O sétimo é Fernando, filho da madrasta. Todos os sábados, o garoto da nossa história ia passar o dia com sua família legítima. Sempre achou que ali seria o seu lugar. Com seu pai “de verdade” e com seus irmãos “de verdade”. Costumava brincar com Fernando, que era quatro anos mais novo. Milton e Norval passaram a engraxar sapatos para ganhar algum. Com um tempo, conseguiram emprego numa gráfica. Aos sábados, depois do almoço, os mais velhos davam dinheiro aos mais novos para que eles comprassem Tubaína (uma espécie de refrigerante) numa “venda” próxima. Eram tardes muito animadas, mas passavam depressa. Antes do anoitecer tinha que voltar para casa. O sonho do garoto era passar uma noite inteira com sua família. Dormir com seus irmãos, numa mesma cama, apertadinhos, mesmo que durante a noite um jogue o pé na orelha do outro. Sonhava em acordar cedinho e tomar o café da manhã sentado no degrau que dava para o quintal. Sua mãe adotiva nunca permitiu que ele dormisse na casa do seu pai. Talvez por receio de que ele ficasse para sempre lá. O garoto nunca entendeu o motivo e guardava mágoas...

Escrito por Aquilante às 17h48
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Terça-feira , 23 de Novembro de 2004


O velho mercado...

No caminho da escola existia um velho mercado. Nos diversos boxes encontrava-se de tudo. Tinha um onde se vendiam doces; outro onde se consertava máquinas de costura; outro onde trabalhava um velho relojoeiro de barbas brancas longas; noutro funcionava uma barbearia; e ainda havia aquele onde se vendiam vasilhas plásticas. Em frente ao mercado havia uma máquina de fazer sorvete, daquelas que possuem uns vasilhames de vidro contendo uma substância líquida de várias cores, a qual, passando pela tal maquina, transformava-se em sorvetes, daqueles que na primeira lambida, sente-se uma dor na testa. O consumidor teria alguns poucos segundos para toma-lo, do contrário voltaria ao estado líquido. De vez em quando, o garoto da nossa história tomava um vermelho, que diziam ser de morango, escondido de todos, já que a mãe adotiva o proibia de tomar qualquer coisa que fosse gelado. No interior do referido mercado, comerciantes vendiam, entre outros produtos, farinha de mandioca contida em grandes caixotes de madeira. Nos finais de tarde, o garoto da nossa história em companhia dos colegas mais próximos, costumava voltar da escola passando por dentro do mercado. Certo dia, um dos garotos resolveu aproximar-se dos caixotes, enterrar uma das mãos na farinha e lançar um punhado na boca, depois saia disparado. A travessura foi repetida pelos outros companheiros, inclusive pelo garoto da nossa história, o qual, ao chegar em casa, inventava sempre uma desculpa para justificar a presença de farinha por entre os cabelos. Essa aventura se repetiu por outras vezes. Certo dia, um aluno de uma outra série resolveu acompanha-los na aventura. Quando este imitou os outros, o dono da farinha correu também atrás dele. Na correria, o garoto “inexperiente” tropeçou, caiu, bateu e fraturou o braço no pára-choque de um veículo que estava estacionado. A aventura até o momento escondida tornou-se pública aos pais, professores e direção da escola. O saldo de tudo isso foi uma semana de exercícios forçados, durante o recreio, na sala da direção.

Escrito por Aquilante às 16h23
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Segunda-feira , 22 de Novembro de 2004


A escola...

Uma grande mangueira com pneus coloridos amarrados por uma corda em seus galhos; uma “piscina” cheia de areia branquinha; duas gangorras de ferro e dois balanços de madeira presos por correntes já oxidadas. Estes brinquedos e uma vasta área de lazer foram utilizados como argumento para mantê-lo na escola. Era seu primeiro dia. Tudo era fantástico aos olhos do garoto, mas não o suficiente para faze-lo largar a mãe adotiva. Precisou de alguns dias para adaptar-se ao meio escolar. Aquela era uma escola grande e conceituada. Uma das melhores da cidade, diziam. Não teriam condições de pagar as mensalidades, não fossem os rendimentos de uma poupança aberta com o dinheiro da venda das vaquinhas, parte da herança que sua mãe deixou. Conservou ainda vinte e cinco “tarefas” de terra, também parte do inventário. Na escola, estudava em meio aos filhos da alta classe da cidade. Os colegas, quando não vinham com suas bicicletas novas, chegavam nos carros luxuosos dos pais. O garoto da nossa história chegava a pé. Andava alguns quilômetros, já que a bicicleta tornara-se muito pequena para a sua estatura. Os colegas costumavam levar dinheiro para comprar a merenda na escola, refrigerante “Crush” e sanduíches. O nosso garoto, levava a lancheirinha em formato de porco, com suco (daqueles em pó) e um pedaço de bolo feito pela mãe adotiva. Não raras vezes, comia o bolo úmido de suco que havia derramado no caminho para a escola. Ainda não se sentia inferior. Era um bom aluno. Embora conversasse um pouco durante algumas aulas, nunca foi indisciplinado. Certo dia, no recreio, um colega estava a perturbar-lhe por um desses motivos infantis. Ele sentiu-se magoado e reagiu de uma forma incomum para o seu temperamento. Correu atrás do colega com uma pequena pedra na mão. O menino escondeu-se atrás de uma das salas de aula, deixando apenas a cabeça à mostra. O nosso garoto atirou a pedra. Mas por uma razão que a física não explica, o vidro da janela da sala de aula atraiu a tal pedra. Naquele dia, voltou para casa com o coração apertado e um bilhete da direção da escola. No caminho de volta, não conseguia pensar em outra coisa a não ser a reação do seu pai adotivo que, por natureza, era extremamente severo.

Escrito por Aquilante às 16h49
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Sábado , 20 de Novembro de 2004


A surpresa...

Os fundos da casa davam para um rio. Rio do Ouro. Diariamente, as lavadeiras estendiam suas roupas por toda a margem. Águas brancas de sabão. Margens coloridas. Crianças nuas se divertiam jogando água uns nos outros. Carentes de recursos materiais, talvez, mas certamente felizes da vida. Tinham liberdade. A criança da nossa história observava esse cenário quase todos os dias, à distância, do portão dos fundos. Tinha dois amigos na rua. Alex, o garoto de cabelos amarelos encaracolados e Ritinha, uma menininha que vivia com o polegar na boca. Mas um dia tiveram que mudar de casa, de bairro. Deixariam de pagar aluguel. Compraram uma casa própria. Naquele bairro não tinha rio, mas tinha a estação ferroviária. Encantava-se com o apito da velha Maria Fumaça, a qual, diariamente, transportava passageiros e minérios da região. Havia também uma velha “Rural” que teve suas rodas adaptadas para andar sobre os trilhos. Guarda ainda na memória o dia em que foi levado à Estação, não para viajar de Trem, mas para tomar uma vacina no posto que funcionava no local. Voltou para casa com uma marca no braço direito, a qual permanece ainda hoje.

Quando tinha quatro anos de idade, ganhou uma agradável surpresa. Uma velha pick-up Willys parou em frente à sua casa. Era o “Seu” Felizardo, comerciante conhecido na cidadezinha onde a criança nascera. Da carroceria, embalada num pedaço de plástico, tirou uma encomenda enviada pelo seu pai. Os olhos daquele pequenino brilharam. O presente que toda criança deseja ganhar. Uma bicicleta vermelha, de selim e punhos laranja e rodinhas auxiliares. Lá ia o garoto pelas calçadas, entre tombos e arranhões, na sua monark. Feliz!

Escrito por Aquilante às 17h29
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Sexta-feira , 19 de Novembro de 2004


Uma nova família...

Sete crianças. Um deles com a idade de dias. Sete pares de olhos úmidos e assustados. Sete órfãos. Tento imaginar a aflição de um pai, diante de tais carentes criaturas. Talvez uma carga extremamente pesada para um só carregar. É uma situação deveras delicada. Eu mesmo não saberia agir. Numa situação semelhante, talvez a minha única reação fosse abraça-los todos e mantê-los protegidos nos meus braços, ali, inerte, em silêncio profundo. Todavia, precisavam agir de forma prática. Visto que os filhos mais velhos não passavam de pré-adolescentes, aquele pai não daria conta de cuidar de um bebê tão frágil e carente de cuidados especiais. Foi aí que, ainda no calor dos acontecimentos, surgiu uma solução. Um tio paterno, em comunhão com sua esposa, dispôs-se a cuidar do bebê. O acordo foi: cuidariam da criança até que o pai contraísse novo casamento. E assim, levaram-no consigo. Os tios moravam numa cidade próxima. Possuíam três filhas entre 10 e 14 anos. A família acabara de ganhar um novo membro, sem planejamento, sem gestação, por motivo fortuito. Um varão entre as mulheres. Passado um ano, aquela família mudou-se para uma cidade maior. As meninas ingressariam no ginásio. Nos turnos opostos às aulas, ajudavam a mãe a cuidar do bebê o qual se tornara bastante pesado. Por se tratar de um lar cristão, todas as manhãs de domingo iam todos à Escola Dominical. O bairro onde moravam era distante da Igreja, assim, o pesado bebê circulava de colo em colo até o destino final. A sua nova mãe o cercava de cuidados. Para evitar as crises respiratórias, não podia tomar vento, nem brincar no chão frio, banho só com água morna. E assim crescia...

Escrito por Aquilante às 15h02
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Quinta-feira , 18 de Novembro de 2004


O começo...

      Está quase na hora da sua sessão de psicanálise. São os cinqüenta minutos mais aguardados da semana. Todas as manhãs das quintas-feiras ele abre seu coração para Márcia. Derrama todos os sentimentos, até os mais escondidos. Faz exatamente um ano que começou a análise. É um outro homem. Lembro-me de quando chegou ao consultório pela primeira vez:

-        O que te trouxe aqui? – Perguntou Márcia.

-        Sou um dependente! Preciso de ajuda. – Respondeu o rapaz.

-        Que espécie de dependência é a tua?

-        Dependência afetiva. Respondeu, engolindo a saliva como se desatasse um nó na garganta.

A partir daí, nos minutos que lhe restavam, passou a relatar sua história. Era 16 de abril de 1970. Numa cidadezinha do interior da Bahia, onde não havia hospital, nem maternidade, nem sequer um médico, uma mulher dera a luz com a ajuda de familiares e vizinhos. Numa família de seis filhos, duas meninas e quatro meninos, acabara de nascer o sétimo, o caçula, o último. Nos primeiros dias de vida, a criança aparentemente saudável, começou a apresentar problemas respiratórios, tinha uma espécie de bronquite. Precisava ser tratado. Como faze-lo se não havia recursos naquela cidade? Ao completar um mês e meio, aproximadamente, a mãe do bebê resolveu leva-lo ao médico numa cidade próxima. Acordou cedo, dirigiu-se à cozinha e preparou o café do marido e das outras crianças que acordariam um pouco mais tarde. Apanhou a sacola com algumas fraldas, mamadeira contendo chá de erva-doce, que é bom para gases, e encaminhou-se com o bebê em seu colo, para a única praça da cidade onde tomariam o ônibus que os levariam ao destino. Foi já na volta do médico, ainda na estrada, que o ônibus que os levava parou no acostamento. Havia acontecido um acidente automobilístico. As vítimas ainda estavam no local aguardando o socorro. Alguns passageiros do ônibus desceram para ver de perto. Entre eles, a mãe daquele bebê. Antes, porém, deu-o para que uma amiga o segurasse por alguns instantes. Queria apenas dar uma olhada mais de perto. Como o ônibus havia parado no lado contrário, a mulher precisou atravessar a pista. Foi numa fração de segundo. Um rápido instante de desatenção. Ao atravessar a pista, a mulher foi atropelada por um veículo que, a despeito de todo o movimento às margens, não reduziu a velocidade e a lançou a alguns metros de distância. Naquele dia, aquele bebê voltou para casa nos braços que não eram os de sua mãe.

Escrito por Aquilante às 09h21
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Histórico