Quando apontava na esquina seu coração se encolhia. Sentia uma pressão no peito que bloqueava o fluxo de ar nos pulmões. Caminhava a passos lentos até chegar ao portão. Na rua escura e deserta, só alguns gatos equilibrando-se nos muros. O velho cadeado dividia-se em dois com o girar da chave. Mais dois passos e estava diante da porta. O dia inteiro no trabalho evitava pensar no momento em que chegaria em casa. Prorrogava-o ao máximo. O ranger da porta soava como o toque da trombeta que o conduzia à sua masmorra interior. Na casa escura, vazia e silenciosa entrava de mãos dadas com a solidão. Acendia todas as luzes, ligava a televisão, na tentativa de trazer para si a sensação de companhia e afastar as sombras, a insegurança, o medo e o pranto. Era assim que se sentia todas as vezes que sua mulher viajava e os filhos iam para a casa da avó. Numa dessas noites, tentando fugir da solidão, entra numa sala de chat, daquelas tipo “papo-cabeça”. Permaneceu ali apenas observando os diálogos, até ser abordado por alguém com quem travou uma conversa agradável. No final, sentia-se melhor. Passou a voltar outras vezes. Conheceu mais pessoas que freqüentavam a sala. Pessoas interessantes. Pessoas de toda parte. Tornou-se assíduo. A despeito de todos os complexos interiores que carregava consigo desde criança, agora poderia experimentar a sensação de pertencimento, ainda que fosse num mundo fugidio, virtual.


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